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Arte e Vida: uma visão criativa

2015

Arte e Vida: uma visão criativa

Seria possível caracterizar um ser vivo, de um ponto de vista social humano, através da sua capacidade de desempenhar uma actividade, seja ela qual for? Considerando que a actividade artística é uma actividade que faz parte do mundo como qualquer outra e que o seu desempenho integra os seres humanos, transformando-os e transfixando-os diante de um difícil caminho – a felicidade que procuramos e acreditamos ser possível no mundo – diríamos que sim.

Assim sendo, talvez possamos afirmar que a verdadeira possibilidade para a vida é aquela que se abre através de uma acção, um acto permitido por uma experimentação sensível do mundo, uma vez que todo o ser humano é capaz desta sensibilidade relativamente ao fazer activo de outrem.

Essa experimentação pode ser caracterizada temporalmente, sendo assim portanto uma acção determinada de uma experimentação, mas indeterminável na sua duração, sendo esse o seu carácter ambivalente. Uma ambivalência paradoxal que existe da relação do seu objecto – o mundo – com o que o substancia – o tempo. Remetendo-nos para a questão: seria possível então a Arte conter a Vida?

A obra de Marco Moreira apresenta-se perante esta questão. Mas, como pode uma actividade como a Arte – uma parte – conter uma totalidade como a Vida? E mais, qual seria a solução – a substância – que torna essa relação um paradoxo possível?

Essa substância é o tempo, um consubstanciador que amalgama esta relação do artista com o espectador e que acontece por meio de uma obra de arte.

Um consubstanciador que se dá na individualidade do artista, através do seu conhecimento e da sua intuição, e também através da individualidade intuitiva do espectador, numa acção sensível não individualizável que faz actuar a obra proposta.

Simples lápis de grafite que ganham vida numa síntese mecânica – uma ferramenta – tornando possível ao artista, assim como a cada espectador desenharem semicírculos, numa; ou círculos concêntricos, noutra. Ações individuais que constroem linhas colectivas não individualizantes.

A efemeridade de uma actividade – a construção da ferramenta – que expressa e torna perene uma experiência naquele que faz actuar a obra para que enfim exista – o espectador. A finitude do vivo que se instala na continuidade da duração temporal da relação autor/obra/espectador através do fazer efémero de uma ferramenta e da perenidade da experimentação vivida, ou seja, da própria vida.

Assim, dessa tripla existência faz-se uma dupla força, que por um lado é uma expressividade racional e intuitiva individual de um artista, e por outro, uma experimentação não individual num acontecimento sensível contemplativo de um espectador.

 

Lisboa, 24 de Março de 2015

Simão Monteiro

 

Monteiro, Simão “Arte e Vida: uma visão criativa”; Nortada, Espaço online dedicado à crítica, reflexão, comentário sobre as artes visuais e as suas vizinhanças. Disponível em: http://a-nortada.tumblr.com/post/114684158788/os-trabalhos-de-marco-moreira-na-perspectiva-de Acesso em: Março 2015

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