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Joaquim Pedro Marques Pinto, Democraticamente falando

2016

Democraticamente falando
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Integrado no programa do Desobedoc, a exposição Em tudo quanto é mundo dito ou não dito toma de assalto o Cinema Batalha, mítico espaço da moderna cinefilia emergente no Porto, com o fim de repensar, indisciplinadamente e no seu tempo, as questões da identidade de género e da livre orientação sexual, da complexa condição dos refugiados na Europa, da crise da política e dos regimes democráticos ou das relações entre a grande cidade e a intervenção artística.

As tendas montadas por Celeste Cerqueira (trabalho apresentado pela artista na exposição Um par = Um Impar, na casa museu Teixeira Lopes, em conjunto com Silvestre Pestana) interrogando directamente o observador em seis línguas diferentes e, assim, revisitando a figura e o contexto dos emigrados, dialoga com o estatuto autobiográfico de Nuno Cassola (neste caso, um português a viver e a trabalhar no Brasil) que, em Hino à Alegria acende o lento rastilho que consome as estrelas que compõem o círculo fechado de uma União Europeia a ferro e fogo.

Tales Frey e Paulo Aureliano da Mata (contrariamente a Cassola, um casal brasileiro a habitar a cena cultural portuense) exibem trabalhos independentes: o primeiro revela Re-banho, filme rodado em 2010 na freguesia de Santo Ildefonso, padroeiro dos artistas, e a performance F2M2M2F, com Isabeli Santiago, na qual um homem e uma mulher subvertem o código dos seus respectivos papéis sexuais, selando essa alteração através de um beijo mantido durante uma hora contra uma superfície espelhada; o segundo surge a devorar Priscilla Davanzo no tríptico Colaboração #1, #2, #3, e a tatuar o nome do tristemente célebre travesti assassinado nas ruas do Porto, em Eu Gisberta, personificando o artista a memória de um símbolo paradigmático da diferença sexual.

A tensão existente entre a dicotomia centro/periferia, essencial à dialéctica das principais urbes, é desenvolvida em Tentaremos não nos esquecer, trabalho de José Oliveira que inscreve simultaneamente a memória de Campanhã no espaço emblemático do Cinema Batalha, recentemente recuperado do abandono votado pelas decisões políticas. Aliás, esse passado histórico invade o tempo presente através dos panfletos publicitários invocados por João Brojo e Felícia Teixeira, que lembram de forma imediata e atenta as antigas sessões de cinema decorridas à época no High Life (espaço que seria transformado no actual Batalha em 1947, pelo arquitecto Artur Andrade), muito frequentadas pelo então jovem Manoel de Oliveira.

Marco Moreira multiplica as várias formas que os suportes e as matérias do desenho podem conquistar, desde as estruturas fechadas (em forma de cubo nomeadamente) até aos cadernos sem lombada hipoteticamente preenchidos pelo conjunto de lápis, entre a origem da grafite e o próprio acto do desenho ou da escrita, num conflito permanente entre a liberdade de criação e a limitação dramática dos meios disponíveis.

Mas como se escreverá ou reescreverá essa história e esse patrimónios? O grande mural de Filipe Marques é passível de sugerir respostas para esta inquietação fundamental, um painel que relata em imagens a genealogia dos movimentos revolucionários vitais ao percurso imanente do processo histórico, da matriz das Revoluções francesa e americana até ao 25 de Abril, passando pelas grandes insurreições que agitaram a cena política na América Latina do século XX, e desvelando igualmente o rosto de teóricos como Robespierre, Engels, Freud ou A. Gramsci, herdeiros e recriadores de uma concreta modernidade intelectual europeia. O luto da foice e do martelo ainda é capaz de relançar o fim da política ou a crescente agonia do projecto democrático no velho continente?  Os morcegos criados por Isabel Ribeiro em três anos e tal depois permanecem fixados na parede, ainda à espera de despertar para a derradeira noite do mundo, convivem com o desejado voo metafórico do pássaro em if i can´t fly, i d’ont want to. Mas vamos para onde? O devir toma as rédeas do seu destino autónomo. Em tudo quanto é mundo dito e não dito implica a partida e o regresso, tal como a andorinha idealizada por Manuel Santos Maia, imagem da fidelidade, torna ao seu ninho depois das constantes migrações realizadas nas duras contingências da viagem. Terrível palavra é NON gravada na pedra e na boca silenciada dos homens. A negação é sempre condição de mudança urgente. Hoje é a hora, não de cantar o futuro, mas de imaginar o nosso lugar enquanto cidadãos.

Política e eticamente.

 

Joaquim Pedro Marques Pinto (Porto, 2016)

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